A Linguagem do Amor Canino

Woman relaxing on the dunes beside her smiling dog, both bathed in sunlight and surrounded by tall coastal grass.

O amor, a cumplicidade e a lealdade que o amor canino nos oferece — eu só compreendi plenamente graças ao meu companheiro, Daniel, que me apresentou a essa forma pura de vínculo.

Flo foi a nossa primeira filha. A nossa família era ela, eu e o Daniel. Flo era uma heading dog com uma particularidade que fazia ela se sobressair: ela tinha um olho azul bem claro e um marrom. Flo era o cachorro mais obediente que eu já conheci. Ela ia em todos os lugares com a gente. Explorou a Nova Zelândia de norte a sul atrás do carro com o vento no rosto dela – como ela adorava.

Contudo, o tanto que ela viveu pareceu proporcional ao pouco tempo que teve. Era como se soubesse que a vida seria breve — e, por isso, decidiu aproveitá-la por inteiro.

Isso porque aos seis anos de idade a Flo começou a ter convulsões. De episódios muito esporádicos, as convulsões em alguns meses começaram a serem mais frequente. Mas, foi um dia quando ela teve quatro convulsões que tudo começou a mudar. A partir daquele dia entramos com uma medicação forte, mas mesmo assim as convulsões começaram a ser recorrentes.

Me lembro bem das noites que acordava para segurar ela durante as crises. Uma semana antes dela partir, nós tínhamos entrado em lockdown (era Agosto de 2021), o que significava que as clinicas veterinárias nao estavam atendendo normalmente. Nessa semana eu foi do céu, ainda com a esperança de um milagre acontecer, até o inferno, de ver ela ficando, a cada convulsão, mais cega e mais fraca. Ver ela daquela maneira foi angustiante e desesperador. Era o fato de eu não poder explicar a ela o que estava acontecendo e da minha total impotência.

Não dava mais para adiar. Marcamos o horário com o veterinário, que por causa do lockdown não podia nos receber dentro da clínica. Aquele momento de levá-la da nossa casa à clinica veterinaria, eu posso falar com confiança, que foi um dos momentos mais intenso que já vivi.

O luto é dilacerante.

É mais intenso pra quem fica que para quem se vai.

Foi ali, na calçada do estacionamento da clínica, que ela se foi. Foi o dia mais vazio e abissal. Se tem uma coisa boa que essa experiência me ensinou foi empatia. Quando passamos por momentos de extrema dor como essa, o nosso coração se expande para sentimentos que a gente nunca imaginou existir. Antes, eu sentia quando alguém dizia que havia perdido um bichinho de estimação, hoje, no entanto, eu não só sinto, eu me lembro.

Duas semanas da partida da Flo, Daniel já tinha começado a falar em adotar outro cachorro, pra mim isso era rápido demais, eu ainda estava processando o meu luto. Ainda acordava à noite pensando ouvir Flo precisando da nossa ajuda.

Mas mais duas semanas se passaram e lá estávamos nós numa fazendo adotando um novo membro para a família.

Era a Sky. Filha de uma heading dog com um German Wirehair Pointer, vinda de uma ninhada de onze filhotes. A dona nos contou algo que me marcou:  ela, apontando para a cachorra que estava dando de mama para os filhotes, disse que aquela não era a mãe deles, mas sim a avó! Sim, a mãe estava exausta de dar de mama então a mãe dela começou a produzir leite naturalmente para ajudar a filha com a ninhada. Uma prova de como o amor multiplica e ultrapassa hierarquias e gerações.

Enquanto estávamos lá a dona disse que a Sky tinha nascido numa quarta-feira, mas não chegamos a perguntar exatamente pelo dia. Algumas semanas com a Sky em casa, nos perguntamos sobre o dia exato do aniversário dela, já que não sabíamos. Descobrimos, pela criadora, que fazia exatamente oito semanas que a Sky tinha nascido, ou seja, a Sky tinha nascido no mesmo dia que a Flo tinha partido.

Desde então, o vínculo com a Sky — ou Pokie, como a chamamos, por cutucar tudo com o nariz — tornou-se espiritual.

Se a nossa vida passa num piscar de olhos, a vida dos nossos companheiros peludos é uma fração de piscar. Talvez seja por isso que eles já nascem sabendo o que nós passamos a vida inteira tentando aprender. Só quem tem um cachorrinho de estimação sabe o quanto esse vínculo é real e verdadeiro.

Que a gente possa aprender com eles a desacelerar e sentir o milagre escondido na rotina — o olhar, a alegria e a companhia que compartilham conosco – um amor simples, tal como ele é. Nessa relação, só nós sabemos que ela terá um fim, e o que restará será só a lembrança da vida juntos, como pequenas gotas de eternidade caindo do tempo deles para o nosso.

Obrigada à Lindi, que fez um ensaio fotográfico comigo e com a Pokie. Ela capturou, com sensibilidade e carinho, momentos que traduzem o amor e a cumplicidade entre nós — imagens que guardarei como um registro vivo dessa conexão.

Woman sitting on the sand with her dog beside her, both facing the sea—she smiles softly while he pants joyfully toward the camera.

Woman crouched on the sand, smiling tenderly while holding her dog’s face, the sea glistening behind them.

Woman sitting on the dunes, smiling beside her dog standing proudly with the ocean behind them, black and white.

E você? Já sentiu esse amor? O que aprende com ele?

Com carinho,

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Respostas de 2

  1. All my feelings just tried to rush out of my eyes!

    Oh Cha, how special that Pokie (or Sky) holds so many precious memories for you.

    She’s her own little dog, and yet she’s the reminder of another.

    She is your sky while flo was your river, and in the river you can see the reflection of the sky, and in the sky you can see the resemblance of the river.

    🤎🤎🤎🤎🤎

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