Sou definitivamente culpada por adorar ouvir e cantar músicas de amor que não são exatamente exemplos de inteligência emocional. Quando presto atenção nas letras, percebo o quanto a maioria soa bem “pouco emocionalmente saudável”. Falam de obsessão, de não conseguir viver sem alguém, de se perder dentro de outra pessoa, total dependência e idealização. Racionalmente, sabemos que esse não é o jeito certo de lidar com o amor. É confuso, e até tóxico, e está longe do que chamaríamos de “consciente” — ou até mesmo de “amor verdadeiro”.
O curioso é que cantar essas letras, mesmo cheias de irracionalidade, pode acabar curando um pouco da própria toxicidade que elas expressam. Elas são quase manuais da irracionalidade emocional — exaltam o amor que sufoca, o desejo que prende, o apego que disfarça medo de estar só. Mas o que de fato elas nos dão é o direito de sermos contraditórios. De sentir sem precisar justificar. Porque quando as cantamos o inconsciente respira. É como o corpo dizendo o que a mente tenta censurar — que, às vezes, não queremos entender o amor, queremos apenas senti-lo.
E esse contraste me faz pensar sobre os limites da cultura consciente em que vivemos. Hoje em dia, somos constantemente incentivados a ser autoconscientes, equilibrados e “mindful”. A analisar nossas emoções, nomeá-las corretamente, regulá-las antes que transbordem. À primeira vista, claro, isso parece evolução. Mas será mesmo? Ou é só mais uma forma de colocar nossos sentimentos dentro de uma caixa para que se comportem?
Às vezes penso que ser “consciente demais” esteriliza a vida. É como jardinar com luvas tão grossas que você nunca toca a terra — fica limpo, mas perde o contato com o que é real. Porque as emoções não existem para serem racionais. Elas simplesmente acontecem muitas vezes de forma intensa e contraditória. E às vezes persistem mesmo quando não fazem sentido. Se tentamos controlá-las o tempo todo, acabamos endurecendo por dentro, transformando aquilo que poderia nos mover em algo estagnado.
A gente sente isso no corpo quando chora ouvindo uma música, ou escreve algo que não faz sentido, mas parece certo naquele momento. Não “resolve” nada, mas é catártico. Dá à dor, à raiva ou ao desejo um lugar para existir fora do corpo. É uma cura racionalmente absurda, mas inconscientemente real.
Penso que é por isso que somos fascinados por artistas e suas artes — eles não têm medo de traduzir os lados indomados da existência humana, aqueles que a maioria de nós tenta esconder. A arte muitas vezes provoca os desejos subterrâneos do coletivo e revela o que a sociedade insiste em domesticar.
Os artistas têm essa liberdade — mas como carregamos esse mesmo fogo para a rotina, para os dias comuns? Até onde o controle nos protege, e quando ele começa a nos aprisionar? O desafio é encontrar o ponto de equilíbrio entre essas duas polaridades — entre a lucidez e a vertigem, entre consciência e instinto. Precisamos dos dois: momentos de clareza e também de entrega total, sem justificativas. Porque um sem o outro é apenas metade da experiência de estar vivo.
Sentindo aqui e sempre,


