Conversas longas e profundas, daquelas que mexem com a alma. Confissões vulneráveis colocadas à mostra. Necessidades antigas finalmente vistas e acolhidas. Momentos de “eu já passei por isso” e momentos de pura presença silenciosa. Assim foram os últimos quinze dias com minha amiga hospedada na minha casa — um desabrochar tranquilo de intimidade, de mulher para mulher. Houve momentos em que paramos, nos olhamos e percebemos o quanto esse tipo de conexão é raro na vida adulta. E o quanto, apesar de escasso, é urgente e necessário.
A verdade humana mais profunda é que temos, de forma fundamental, a necessidade de dar e receber amor. Somos biologicamente e psicologicamente programados para conexão e pertencimento — é isso que dá sentido à vida. Mas o amor se manifesta de diversas formas, e hoje quero refletir sobre uma delas, que a sociedade parece fazer de tudo para deslegitimar: a sororidade.
Há séculos, a sociedade mina a força da sororidade ao semear rivalidade entre mulheres por meio da competição, da comparação e do controle — táticas que fragmentam, ao invés de unir. Desde a demonização histórica de coletivos femininos como “coven” de bruxas nas caças às bruxas, até a glorificação da rivalidade em filmes e séries (como o estereótipo da “patricinha malvada” ou a velha dicotomia entre “santa” e “devassa”), aprendemos, sutil e explicitamente, a desconfiar umas das outras.
Infelizmente, ainda vemos muitos incentivos à rivalidade entre mulheres — como manchetes sensacionalistas que colocam mulheres bem-sucedidas como ameaças entre si, reforçando a ideia de que só há espaço para uma no topo. Até mesmo nos movimentos sufragistas e feministas, mulheres brancas foram frequentemente colocadas em oposição a mulheres negras e indígenas, revelando como os sistemas de poder exploram a divisão para manter supremacia. Ao transformar o empoderamento mútuo em um jogo de soma zero, a sociedade não apenas desvaloriza a sororidade — ela enfraquece uma das formas mais potentes de resistência e sabedoria ancestral.
Essa fragmentação não se limita à influência da mídia ou de estereótipos culturais — ela se infiltra também dentro do próprio movimento feminista, onde mulheres foram (e ainda são) julgadas e excluídas por outras mulheres por não se encaixarem em padrões estreitos do que seria um “feminismo aceitável”.
Em vez de promover uma visão verdadeiramente inclusiva e libertadora, certos discursos feministas passaram a vigiar comportamentos, aparências e posicionamentos políticos — rotulando como “menos feministas” aquelas que abraçam a maternidade, rituais de beleza ou relacionamentos heterossexuais, enquanto outras são excluídas por serem “demais”: independentes demais, radicais demais, raivosas demais, queer demais, trans demais, diferentes demais. Essa visão binária e moralizante parece penetrar todas as instituições humanas.
Eu mesma, por exemplo, já me perguntei se estar arrumada demais apagaria a luz de outras mulheres ou se usar batom ou cuidar da estética me tornaria “menos feminista”. Mas poucas coisas me ensinaram mais sobre libertação do que ver mulheres vivendo suas contradições com coragem e sem pedir desculpas.
Quando somos jovens, aprendemos a nos encolher para caber — em amizades, em padrões de beleza, no molde do que os outros esperam de uma “boa menina” ou de uma “mulher forte”. A gente se adapta, se molda, silencia partes de si só para ser aceita. Mas com o tempo — e com um pouco de cura, desconstrução e consciência — começamos a perceber o preço dessa autoanulação.
Percebemos que o feminismo não pode prosperar em ambientes que reproduzem as mesmas estruturas de controle que ele pretende romper. Um movimento que se diz libertador não pode funcionar com regras rígidas, hierarquias morais ou testes de pureza. Ele precisa abrir espaço para a contradição, para a evolução, para a imperfeição. Precisa sustentar a complexidade — aquela que acolhe tanto a doçura quanto a fúria, a maternidade e a independência, o batom vermelho e os cartazes de protesto.
Se quiser servir a todas as mulheres, o feminismo precisa abraçar o espectro inteiro, caótico e glorioso da experiência feminina. E é aí que entram os princípios da sororidade.
Quando traçamos fronteiras rígidas sobre o que é ou não é “feminista de verdade”, enfraquecemos exatamente o que torna o movimento poderoso: a diversidade de experiências e pensamentos. A força está na unidade radical, não na uniformidade. E não existe unidade sem amor e apoio mútuo. Só com cuidado profundo e intencional — ouvindo de verdade, segurando a barra uma da outra, mesmo com trajetórias diferentes — é que conseguimos construir algo resiliente, e não rival.
Mas esse tipo de amor, como disse antes, é raro — porque ele exige mais do que solidariedade performática. Exige presença. Humildade. E a disposição de colocar o ego de lado por algo maior. Em um mundo que lucra com a nossa divisão, a sororidade é, sim, um ato revolucionário.
Escrevo este texto porque tenho me sentido profundamente tocada e inspirada pelas mulheres ao meu redor — tanto na minha vida pessoal quanto no mundo. A presença ativa das mulheres na sociedade (o que, pasmem, é um fenômeno ainda recente!) está mudando tudo: a forma de liderar, de gerar riqueza, de romper silêncios, de narrar histórias. E quanto mais eu vivo, mais percebo o quão única e insubstituível é a forma de amar que existe entre mulheres. Traz uma alegria, um chão, uma conexão que nenhum outro tipo de amor alcança — nem o romântico, nem o familiar, nem a amizade no sentido mais genérico. Me sinto imensamente sortuda por estar cultivando esse tipo de vínculo com minhas irmãs.
Acredito que cultivar e nutrir a sororidade não é apenas uma bênção pessoal — é, de fato, um ato político. E toda vez que escolhemos construir, cuidar e proteger esses laços, estamos fortalecendo algo sagrado, potente e insubstituível.
Às mulheres da minha vida — obrigada. Obrigada por abrirem espaço para que eu seja um ser humano em constante transformação. Por testemunharem minhas dúvidas sem tentar consertá-las. Por rirem comigo até chorar das coisas mais bobas. Vocês me lembram, sempre, que eu não preciso merecer pertencimento. Eu já pertenço.
E se você também já sentiu esse tipo de amor — mesmo que só uma vez — você sabe o quanto ele é transformador. Por isso, deixo aqui algo que escrevi não como regras fixas, mas como princípios vivos — lembretes para todas nós que desejamos cultivar essas conexões com mais intenção.

10 Princípios da Sororidade
1. Apoio mútuo
Sororidade é presença — emocional, prática, espiritual. É segurar a mão uma da outra sem julgamento, oferecer encorajamento nos momentos de dúvida e celebrar as conquistas sem comparação.
2. Empatia e escuta ativa
Uma irmã de verdade escuta para entender, não para responder. Ela honra a verdade da outra, mesmo quando é diferente da sua. Na sororidade, presença vale mais que performance.
3. Não-competição
Ao invés de se verem como rivais, irmãs substituem a escassez pela abundância: “Sua luz não apaga a minha.” A sororidade floresce na cooperação, não na hierarquia.
4. Responsabilidade com compaixão
Irmãs se desafiam a crescer — com amor, mas com honestidade. Oferecem espelho e âncora, verdade e ternura. A crítica, quando existe, nasce do cuidado — nunca do controle.
5. Sabedoria compartilhada
A sororidade é intergeracional e vivida na prática. Ela transmite saberes — de rituais menstruais a conselhos profissionais, de corações partidos a ferramentas espirituais — como uma linhagem oral de sobrevivência e florescimento.
6. Aceitação radical
Você pode ser confusa, barulhenta, doce, furiosa ou incerta. Na sororidade, as máscaras caem. Identidade não é performance.
7. Cura coletiva
Cuidar de si é político. E na sororidade, isso vira cuidado coletivo. Seja curando traumas, vergonha corporal, solidão ou machismo — a mensagem é: estamos juntas. A sua dor não é só sua.
8. Confiança e segurança
Sem confiança, não há sororidade. Segurança emocional é prioridade, limites são respeitados, confidências são guardadas. É um espaço sagrado.
9. Celebração das diferenças
Sororidade não é sobre ser igual — é sobre estar ao lado. Ela honra a multiplicidade da mulher (raça, classe, neurodivergência, sexualidade, idade etc.) e se compromete a aprender com ela, não apagá-la.
10. Reciprocidade
Há um ritmo entre dar e receber. Ninguém dá para sempre, ninguém recebe sem fim. A sororidade flui porque é construída sobre generosidade mútua e troca consciente.
Se esse texto falou com você, envie para uma mulher que fez parte da sua jornada — aquela que te ouviu, te desafiou, riu com você ou te lembrou do seu valor. É uma forma de dizer: obrigada. Eu também estou aqui para você.
Do meu coração para o seu,
