Cura e Amadurecimento

An older man with silver hair wearing a black GAP hoodie sits on wooden steps beside a smiling woman in a red patterned kimono-style jacket. They lean into each other with relaxed affection outside a rustic wooden cabin, warm light glowing from the doorway behind them.

Ter meu pai aqui dessa vez foi diferente de todas outras vezes que passamos tempo juntos. Isso porque eu curei uma ferida antiga que carregava desde menina.

Muitas coisas aconteceram nas últimas semanas. Eu me encontro em uma daquelas bifurcações da vida em que qualquer caminho escolhido muda completamente a direção do que vem depois. Nada parece simples ou fácil. E agora eu sei que ter meu pai aqui comigo, nesse momento, foi um elemento essencial do que estou atravessando.

Para ficar mais claro eu preciso voltar ao meu passado.

Eu tinha sete anos de idade quando a minha mãe pediu o divórcio ao meu pai. Eu me lembro da minha mãe conversando algo comigo sobre aquele momento, mas não me lembro exatamente o que foi dito. Por outro lado, eu nunca recordei do meu pai conversando comigo sobre isso.

Não muito tempo depois da minha mãe pedir o divórcio, meu pai retornou ao Chile. Eu e minha irmã ficamos com minha mãe.

Esse acontecimento teve um grande impacto na minha vida e nos meus padrões emocionais. 

Algum tempo depois que me pai nos deixou, eu comecei a ter ataques de pânico na escola, uma coisa que permaneceu até a minha vida adulta. Outra coisa que mudou foi a minha relação com pessoas do sexo masculino.

A partir de um determinado momento eu passei a ter medo de me relacionar com meninos. Eu não sei ao certo exatamente o que era, mas era um mix de medo e vergonha de ser eu mesma na frente de meninos, principalmente meninos que me atraiam.

Com o tempo eu fui entendendo que a trava que eu tinha era um grande medo de rejeição e abandono.

Foram necessários 28 anos para que eu conseguisse processar esse acontecimento e, enfim, integrar e acolher a parte de mim que ficou ferida e carregou, por tanto tempo, os efeitos daquele momento.

Já fazia bastante tempo que eu compreendia tudo isso – o meu medo de abandono, a culpa, a vergonha, as motivações de cada parte da história – e, ainda assim, de alguma forma, eu continuava sendo acionada por gatilhos na relação com meu pai e sabia que ainda carregava certo julgamento em relação a ele.

Foi dessa vez que algo significativo virou.

Eu não sei ao certo como expressar com palavras o que foi, mas dessa vez quando eu vi meu pai eu não o vi como o meu pai – eu o vi como um ser humano. É como se eu tivesse tirado o filtro pelo qual eu sempre o enxerguei e tivesse colocado outro mais nítido, límpido. Eu, pela primeira vez, enxerguei o meu pai sem a carga emocional que o papel dele representa na minha vida. 

Hoje eu entendo que para isso ter sido possível, eu tive que escavar o fundo de muitas gavetas dentro de mim. E devo isso à minha curiosidade incessante em entender as razões e motivações das coisas e das pessoas – e pasmem, algo que por muito tempo eu mesma julguei chato sobre mim.

Eu notei esse novo filtro quando, nos primeiros dias da chegada dele, eu percebi que meu pai tem TDAH. E mais que isso, o quanto isso impactou e ainda impacta a vida dele. A clareza com que vi tudo me desconcertou. Fiquei maravilhada por nunca ter percebido isso antes.

A queda desse véu para mim foi suficiente para eu parar de ter gatilhos antigos.

Mas tivemos também uma conversa tão honesta que foi um divisor de águas para mim.

Meu pai me contou como aquele momento do divórcio com a minha mãe foi devastador. Disse que, no dia em que voltou para o Chile, quem o levou até a rodoviária fomos nós: minha mãe, eu, minha irmã e o meu tio – irmão dele.

Ele me contou que, já sentado dentro do ônibus, tirou uma foto da despedida. E então me disse que, naquela imagem, havia apenas uma pessoa sorrindo, acenando para ele.

Ele me perguntou: — Quem você acha que estava feliz?

Eu pensei na minha mãe, talvez aliviada com a partida dele, e respondi: — A minha mãe?

Ele disse: — Não. Era você.

Eu não me lembrava disso.

Para tentar entender, emotiva eu perguntei: — Você conversou comigo sobre o que estava acontecendo? Você me explicou a situação?

Meu pai confirmou o que eu sempre suspeitei: — Não. Achei que você fosse pequena demais para entender.

Foi ali que tudo se reorganizou dentro de mim. Eu não sabia que meu pai estava indo embora. Muito menos que ele não voltaria.

Contei a ele que, algum tempo depois da partida dele, eu parei de comer. Lembro com nitidez do dia em que minha mãe me perguntou se eu não queria comer porque meu pai não estava mais ali – e de eu responder, com a simplicidade brutal de uma criança: sim.

Meu pai disse que não sabia disso. Disse também que o maior arrependimento da vida dele foi ter deixado as filhas.

E eu, não apenas como filha, mas como a mulher que me tornei – alguém que chegou até aqui tentando fazer as pazes com a própria história – disse que o entendia. Disse que hoje, com mais tempo, mais consciência e mais vida vivida, eu compreendo as motivações dele. Que eu o perdoo. E que ele também poderia se perdoar.

Essa conversa foi como abrir a porta de um porão escuro e gélido para mim. 

A vintage-style photograph shows a man sitting on a couch holding a young girl on his lap. Both are making playful faces with their tongues out, captured indoors under soft, slightly faded lighting. A Barbie toy box is visible in the background.

Eu sei que isso é raro. Eu reconheço que ter a oportunidade de receber e dar a nossa vulnerabilidade aos nossos pais é muito difícil e muitas vezes impossível. Portanto, eu reconheço a profundidade e raridade dessa chance preciosa que eu tive.

Alguns dias atrás eu compartilhei no instagram um post brilhante que dizia:

“Depois de certa idade, você deixa de ser produto do seu ambiente ou da forma como foi criado. Viver da maneira que você vive é uma escolha pessoal. Em algum momento, culpar o passado se torna uma distração para o seu futuro. A cura é sua responsabilidade. O crescimento é sua decisão.”

A gente só amadurece quando começamos a tomar responsabilidade pelo o que aconteceu com a gente sem colocar a culpa em ninguém, incluindo a nós mesmos. Não podemos mudar o passado, mas podemos entende-lo e ressignifica-lo. É assim que interrompemos a repetição dos padrões herdados dos nossos pais – os mesmos que, ao menos, nos irritam, no limite, nos enfurecem e que também moldam como nos relacionamos com as pessoas.

O mais comum é que esses padrões sejam passados de geração em geração até uma pessoa ter a autoconsciência, coragem e energia de quebrar o ciclo vicioso.

Se eu puder dar uma dica de como começar esse processo de amadurecimento eu diria que o primeiro passo é pela auto compaixão. A gente só pode ter compaixão, empatia e discernimento perante aos outros quando desenvolvemos esses sentimentos para com nós mesmos. Como Yung Pueblo diz:

“A forma mais elevada de amor é trabalhar a si mesmo, para que possamos oferecer a melhor versão de nós mesmos aos outros.”

Quantos relacionamentos insatisfeitos e mecânicos, marcados pela condescendência, pelo desdém e pela toxicidade, acabam ensinando às próximas gerações – não pelo que dizem, mas pelo que vivem – tudo o que o amor não é.

E não escrevo isso a partir de um lugar de julgamento, porque mudar não depende apenas de força de vontade ou motivação. Exige um nível de autorreflexão que se tem – ou não. Cada pessoa ecoa uma vibração e não há nada que possamos fazer para forçar esse tipo de mudança em ninguém.

Compartilho isso, primeiro e sobretudo, como uma forma de processar a minha própria experiência e organizar meu mundo interno. Segundo, com a esperança de que meu exemplo possa ilustrar a fragilidade das relações humanas e o impacto visceral que elas exercem sobre nós.

Escolhi mudar, apesar de todas as perdas e compensações que a mudança exige, porque acredito que a vida seja curta demais para não vivermos um amor verdadeiro, seguro e confiável – ainda que esse amor seja apenas o amor por nós mesmos.

E eu desejo e quero contribuir para que mais e mais pessoas também possam experienciar isso.

Do meu coração para o seu,

Se esse post te beneficiou compartilhe ele no: ;)

Respostas de 2

Deixe seu sip aqui

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos Relacionados