Sempre foi difícil para mim aceitar a minha tendência neurótica de enxergar — e até supervalorizar — tudo o que pode dar errado no futuro. Pensamentos catastróficos, profundamente ligados à ansiedade, sempre pareceram parte inescapável da minha forma de pensar.
Por muito tempo, eu não conseguia ver nada de bom nesse tipo de pensamento, porque o associava apenas à ansiedade e ao “ser ansiosa”. Mas, de um tempo para cá, venho refletindo sobre como, de alguma forma, isso também me ajuda. Afinal de contas, a natureza é muito sábia para criar algo sem propósito.
Essa minha tendência a catastrofizar me faz parar, de tempos em tempos, para me perguntar: quem eu seria se perdesse tudo? Minha família, minha casa, meus amigos — basicamente, a vida como ela é. Porque, como uma boa mente neurótica (!), você aprende (muitas vezes mais pela observação e ruminação do que pela experiência) que praticamente nada é garantido nessa vida.
E é nesse exercício que eu volto a sentir uma gratidão genuína e imensa: pelas pessoas, pelas experiências que posso viver, pelos bens materiais e pela pessoa que sou. Uma gratidão não apenas pela alegria de ter e ser tudo isso, mas pelo reconhecimento de que tudo pode ser tirado de mim a qualquer momento — e é exatamente isso que torna tudo mais valioso, raro e especial em sua essência.
Foi a partir daí que me perguntei: se tudo isso pode ser tirado a qualquer instante, o que restaria de mim? Ou seja, qual é a coisa mais essencial da vida — aquela que nem mesmo a própria vida pode me tirar?
Eu poderia dizer que família e saúde são as coisas mais importantes para os seres humanos. Mas será mesmo? A vida pode tirar essas coisas também. E se podemos viver além dessas perdas, ainda que uma grande parte de quem nós somos se perde junto delas, então talvez elas não sejam, em si, o mais essencial.
Mas então… o que é a coisa mais importante da vida?
A coisa mais importante é o sentido que damos à nossa vida. É isso que mais sustenta a alma humana.
E esse sentido não precisa ser grandioso — mas precisa ser verdadeiro. Seja através de conexões com outras pessoas, da expressão criativa, da espiritualidade, da contribuição para o mundo ou do simples ato de estar plenamente presente.
Encontrar sentido não é um ponto fixo. É um processo vivo, dinâmico e, muitas vezes, sutil. O que fazia sentido antes pode já não fazer mais agora — e então nos vemos em uma nova fase de busca por propósito.
E para criarmos e ressignificarmos o sentido da nossa vida, precisamos cultivar quatro qualidades:
- Presença, para perceber o que está vivo em nós no momento.
- Coragem, para deixar ir o que não faz mais sentido.
- Imaginação, para sonhar novos caminhos e cocriar possibilidades.
- Aceitação, para lidar com o fato de que, às vezes, o sentido não aparece de forma clara.
Esse cultivo é o ponto de partida para atribuir significado à vida.
Como Victor Frankl, sobrevivente do Holocausto e autor de Em Busca de Sentido, escreveu:
“A vida nunca se torna insuportável pelas circunstâncias, mas pela falta de sentido e propósito.”
“Tudo pode ser tirado de um homem, exceto uma coisa: a última das liberdade humanas — escolher sua atitude diante de qualquer circunstância.”

A Mentalidade como Instrumento de Sentido
No fim das contas, é a mentalidade aberta, curiosa e flexível que sustenta essas qualidades. Ela é o instrumento com o qual damos coerência, valor e propósito à nossa vida.
Por isso, penso que a mentalidade é o instrumento de sustentação criativa do sentido — e talvez, a maior forma de liberdade do ser. Também é uma forma de amor-próprio profundo. E essa é a única coisa que a vida nunca poderá te tirar. É aquilo sobre o qual você tem mais poder.
Pense comigo: Se a vida te tira tudo o que tens, o que sobra? Sobra o teu amor-próprio. A “caixa preta” da tua mente, contendo todas as tuas crenças, valores, atitudes e auto-diálogos que moldam a forma como você enxerga o mundo, a si mesmo e age às situações da vida.
Esses são os chamados constructos pessoais — e eu falo mais sobre eles neste post aqui.
Conclusão
No fundo, talvez viver com sentido não seja sobre ter todas as respostas, mas sim sobre fazer as perguntas certas com honestidade e coragem. E cuidar da nossa mentalidade — com presença, curiosidade e amor — é o jeito mais íntimo de honrar a vida nos dada, mesmo quando tudo ao redor parece incerto.
O que ninguém pode tirar de você, é o que te torna inteiro.
E foi assim — com essa mentalidade — que compreendi que minha tendência de catastrofizar o futuro não está ligada apenas à ansiedade, mas também a um impulso profundo de refletir, ressignificar e encontrar sentido na vida.
Com carinho e próposito,
Cha
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