Ainda estou digerindo a inesperada surpresa que foi o meu diagnóstico de TDA no ano passado (eu conto mais sobre isso aqui) Mas por que foi tão surpreendente assim?
A verdade é que já me deram muitos diagnósticos: ansiedade, depressão, dermatilomania, distimia (todos sintomas)… mas nunca ninguém cogitou TDA. Nunca. Nenhum desses outros rótulos foi tão preciso, tão esclarecedor e, principalmente, tão transformador quanto esse.
Quando o diagnóstico finalmente acerta, tudo muda. E talvez seja justamente por isso que ele causa tanto impacto: porque os erros anteriores já vinham cobrando um preço alto. Porque um diagnóstico equivocado pode ter muitas consequências. A mais óbvia é um tratamento inadequado. Depois, o desperdício financeiro, o desgaste emocional e, talvez o pior de todos, o acúmulo de frustração de quem convive com o transtorno sem saber.
E quando essa frustração é silenciosa, ela vai se infiltrando em tudo.
Esse ciclo de frustração e erro se alimenta com a desinformação — e, pior, a distorção da informação. Ainda hoje, muitos profissionais de saúde não estão preparados para reconhecer os diferentes perfis e manifestações do TDA, o que contribui para diagnósticos tardios ou equivocados. Isso torna o caminho para o diagnóstico mais longo, mais solitário e mais inacessível para muita gente.
E aí entra outro fator que agrava tudo: o estigma. A forma como a sociedade trata qualquer transtorno — não só o TDA — acaba alimentando isolamento, vergonha, culpa, julgamento e resistência. Isso não impacta só quem tem o transtorno, mas também quem está por perto. E quando a gente soma todas essas pessoas… bem, estamos falando da sociedade como um todo.
Falo isso porque eu mesma fui, por muito tempo, vítima da minha própria visão limitada. Eu também generalizava os sintomas e acreditava naquele estereótipo preguiçoso de quem tem TDA: a pessoa avoada, que não termina nada, que perde tudo. E, como muita gente, eu achava que tudo hoje em dia acabava sendo diagnosticado como TDA — como se fosse uma moda ou uma desculpa para comportamentos que “todo mundo tem”.
Só comecei a me questionar de verdade quando me abri com pessoas próximas e vi que havia camadas muito mais profundas por trás do transtorno. Foi aí que comecei a desconstruir essa ideia simplificada e a entender que o TDA não é um traço de personalidade ou um exagero da geração atual — é uma condição neurobiológica, com efeitos reais e persistentes na forma como o cérebro regula atenção, emoção e comportamento.
Minha percepção começou a mudar de verdade quando, mesmo levando um estilo de vida saudável, eu me vi vivendo algo que não conseguia nomear.
Eu estava num momento da vida em que fazia tudo o que estava ao meu alcance para cuidar da minha saúde mental: boa alimentação, exercício, meditação, sauna, banho gelado, contato com a natureza, sono regulado… Justamente por isso, era difícil me encaixar naquele perfil estereotipado de quem tem TDA.
Afinal, eu sempre me considerei uma pessoa organizada (em várias áreas da vida), disciplinada quando importa, e determinada quando algo realmente me motiva — o que só tornava tudo ainda mais confuso.
Me esforçava ao máximo para manter uma rotina equilibrada, porque sentia melhora no meu bem-estar, mas a verdade é que ainda sentia que algo não estava certo. Ainda assim, eu me sentia muito ansiosa, improdutiva, frustrada e procrastinando em coisas importantes. Não era preguiça. Não era desorganização. E muito menos falta de vontade – era algo que não se explicava apenas com “falta de disciplina”.
Alguns meses antes do meu diagnóstico de TDA, em mais uma tentativa de entender aquele desconforto persistente resolvi procurar novamente ajuda profissional. Dessa vez, a psicóloga me diagnosticou com distimia, um tipo de depressão moderada e crônica. Mas aquele rótulo não fazia sentido pra mim. Eu já tinha vivido a depressão na adolescência, e o que eu sentia agora era diferente. Não era tristeza. Era uma sensação de atrito constante, um desalinho entre o que eu conseguia realizar e o que acontecia dentro da minha cabeça.
Meses depois, veio o diagnóstico de TDA. E tudo fez sentido. Porque não só explicou o que eu sentia, mas também muitas coisas que aconteceram no meu passado.
O Tratamento e seus Estigmas
Após o diagnóstico veio o desafio seguinte: escolher o tratamento.
E aí eu esbarrei em mais uma parede: os estigmas e tabus em torno da medicação.
Uma parte do problema é que pouca gente fala sobre isso de forma aberta e muita gente associa o uso de estimulantes a vício ou doping, como se quem toma estivesse querendo trapacear. Outros acham que o remédio vai alterar sua personalidade, reduzir sua criatividade, apagar sua essência. Existe também o discurso moralizante de que “remédio é a última opção”. Um discurso muitas vezes travestido de naturalismo, espiritualidade ou autossuficiência.
E, infelizmente, esses discursos silenciosos geram culpa, insegurança e autojulgamento. Fazem com que muita gente abandone o tratamento ou nem chegue a procurar ajuda.
No meu caso, fazer tudo “certo”, saudável e natural me ajudou até certo ponto. Foi então, com o acompanhamento médico, que entendi como a medicação poderia realmente fazer diferença.
Mas mesmo com toda a orientação, acabei caindo numa armadilha comum: começei a tomar o remédio da forma como ele é popularmente entendido.
O Uso da Medicação
Muita gente acha que os estimulantes servem pra te dar “foco”. E como essa é a narrativa dominante, até quem tem TDA acaba usando a medicação só quando precisa render no trabalho. E eu, não muito diferente, passei a fazer exatamente isso. Esquecia de tomar nos outros dias, mas quando tinha muito o que fazer, lá ia eu tomar a pílula mágica.
Até que meu psiquiatra me deu uma bronca. Primeiro, por não entender o real propósito do tratamento. Segundo, por não estar levando a sério algo que exige consistência. Porque o foco, embora seja o efeito mais visível da medicação, não é o único — e nem o principal. Ele é consequência de um processo mais profundo.
A medicação atua regulando neurotransmissores como dopamina e noradrenalina. Isso impacta várias funções executivas: regulação emocional, controle de impulsos, motivação, memória operacional, planejamento. O foco vem dai — não de um “turbo de produtividade”, como muita gente pensa.
Por isso é tão importante entender que o remédio não é algo que você toma só quando quer “render”. Essa visão é limitada — e perigosa. Reforça a ideia de que o TDA é só um problema de desempenho. Quando, na verdade, ele impacta a forma como o cérebro funciona o tempo inteiro, em todos os contextos da vida.
Tomar a medicação de forma irregular, como eu fazia, traz instabilidade emocional, efeito rebote e confusão sobre se o tratamento está funcionando ou não. Foi exatamente o que vivi: parecia que nada mudava. E claro — era como tentar treinar um músculo uma vez por semana e esperar progresso.
Depois de esclarecer tudo isso com o meu médico, entendi que a regularidade é essencial. A medicação, junto com hábitos, ajuda o cérebro a funcionar de forma mais equilibrada ao longo do tempo — não só nas horas em que você precisa “dar conta”.
Hoje, o que mais percebo com o uso do remédio é o silêncio. Um silêncio dentro da minha cabeça. Aqueles pensamentos caóticos, rápidos e intrusivos diminuem. Com orientação médica, ajustamos a medicação da seguinte forma: de manhã, tomo Concerta, que tem efeito prolongado e mais sutil ao longo do dia. No fim da tarde, tomo Ritalina, de ação rápida e e mais curta, para que à noite eu consiga descansar sem minha cabeça ficar disparando pra todo lado. Esse ajuste da medicação melhorou muito meu sono e minha ansiedade.
Acho importante dizer que essa combinação foi feita com acompanhamento médico e é baseada no meu caso específico. Compartilhar como uso a medicação pode ser útil para outras pessoas, mas isso de maneira nenhuma é uma recomendação. O tratamento para TDA é altamente individualizado e precisa ser ajustado por um profissional qualificado. Por isso, qualquer decisão sobre medicação deve ser feita com supervisão — e nunca com base em relatos na internet, como o meu, por mais bem-intencionados que sejam. Um bom acompanhamento profissional é crucial para o sucesso de um tratamento eficaz.
E quem convive com o TDA sabe: a medicação ajuda — e ajuda muito — mas ela não resolve tudo. Ela é uma parte fundamental do tratamento, mas o resto do caminho ainda depende de outros apoios, ferramentas, aprendizados e recomeços.
Ainda estou no início de mais um processo de reencontro — e espero que dividir essa jornada com você te ajude a começar (ou continuar) a sua.
E não se esqueça: seja inteiro. S e m p r e.
Abraço,
