No dia 16 de julho de 2025 fez 10 anos que eu pousei na Nova Zelândia pela primeira vez.
É uma data nostálgica. Dez anos não é pouco tempo, mas também não é muito. É um tempo significativo: ainda lembro com muitos detalhes os primeiros cinco anos de intensas mudanças e sinto as raízes profundas que criei nos cinco seguintes.
Nos primeiros anos, eu finalmente chegava ao estágio de sentir que a Nova Zelândia era minha casa. Ainda estava encantada com tudo de bom que esse país oferece (conto mais sobre essa fase neste post aqui). Já os últimos cinco anos marcaram o começo de outra sensação: a de começar a sentir falta das coisas que eu sempre tomei por garantidas. Coisas que eu nunca tinha reparado o quanto gostava e o quanto faziam diferença na minha vida. Comecei a perceber as ausências.
O “ruim” aqui não é propriamente o que há de errado, mas o que deixou de haver. O que passou a incomodar não foi o que encontrei, mas o que faltava. Para mim, essa falta foi a espontaneidade nas relações e a frieza social, muitas vezes disfarçada de indiferença ou monotonismo. Claro que não são defeitos objetivos, são lacunas subjetivas de quem veio de um lugar onde o contato humano é mais expressivo, presente e aberto.
Sentir falta da família e da comida é um clichê, mas a complexidade da imigração vai muito além. Me surpreendi, por exemplo, quando percebi que sentia falta das interações com estranhos — como caminhar na rua e alguém que está limpando a calçada parar, olhar para você e desejar um bom dia. Em São Paulo, isso era normal, e eu subestimei esse tipo de interação.
Sinto falta da simpatia dos desconhecidos. Da qualidade do serviço. De ver pessoas felizes em servir, em fazer bem feito. Nas últimas vezes em que estive no Brasil, coisas pequenas fizeram minha alma sorrir — como ter conversas que vão além do clima com alguém na rua, ou simplesmente dar um “bom dia” e receber um sorriso de volta. Pode parecer bobo, mas para quem vem de uma cultura onde a afetividade se manifesta com facilidade no cotidiano, isso faz muita diferença.
Nessa fase, eu passei a conhecer mais os prós e contras de cada país. E algo curioso acontece quando essa consciência se aprofunda: só quem vive entre mundos consegue perceber as nuances das sutilezas da linguagem, as diferenças de valores, os silêncios culturais, a maneira de viver e de pensar. É exatamente quando você pertencesse a dois lugares e, ao mesmo tempo, a nenhum completamente. É um deslocamento crônico, você nunca está 100% aqui ou 100% lá.
Por isso nesses últimos cinco anos, fui criando uma identidade híbrida, em uma constante renegociação interna de pertencimento. Viver aqui deixou de ser perfeito, assim como no Brasil. E mesmo com o coração permanentemente dividido, ganhei uma lente mais ampla da vida — e isso, sim, é um grande privilégio.
O privilégio do imigrante é ser ponte que conecta culturas e enriquece a diversidade. Vivemos entre mundos, experienciando o que é cultural, o que é pessoal, o que é estrutural e o que é verdadeiramente humano. Aprendemos a escolher quais valores manter, quais questionar e quais deixar para trás. É uma lente crítica e criativa que poucas pessoas desenvolvem vivendo sempre no mesmo lugar.
Ser imigrante é ser estrangeiro no mundo, mas mais íntimo de si. Mais consciente da própria história rica e mesclada. E isso, apesar do cansaço da adaptação, do não pertencimento e das rupturas, é um tipo de empoderamento. Somos alienígenas desse planeta com uma perspectiva privilegiada das contradições, dos limites e das possibilidades de cada lugar.
Até a próxima,
