Desde o meu diagnóstico de TDA passei a observar meu próprio cérebro como quem tenta entender um idioma que já fala, mas nunca estudou. Descobri que o TDA não é uma lista de sintomas mas sim um modo de experienciar o mundo. Cada pessoa tem uma combinação única de anatomia, personalidade e história de vida. E por isso, reduzir o TDA a “falta de foco” ou “desorganização” é como julgar uma música só pela batida, sem ouvir a melodia.
Entender meu cérebro é fascinante. Convivê-lo, nem tanto. Principalmente quando o assunto é começar — ou recomeçar — qualquer coisa. Eu sei… procrastinação é humano – quem nunca procrastinou é anormal. O problema não é se a gente procrastina ou não, o problema é: qual é o limite da procrastinação?
Esperei cinco dias e dezesseis horas para começar este texto e mais quatro para terminá-lo. Escrever me alegra, mas começar é sempre um ato de guerra, porque apesar da alegria e satisfação, é difícil e demanda muita energia.
Pior ainda é recomeçar — porque basta um pássaro cantar, o carteiro bater na porta, obcecar com as pontas do meu cabelo ou a minha cachorra me olhar pedindo pra sair, e pronto: a vida me arrasta para longe, e o ciclo da procrastinação recomeça de novo. É um, verdadeiro, pane no sistema.
Aí você pode me dizer: mas você faz! Você escreve, conclui, passa nas provas, fez faculdade, vive fazendo mil coisas. É verdade. Pessoas com TDA fazem muito, às vezes até demais. Mas o TDA não tem a ver com o que aparece do lado de fora — tem a ver com o que acontece aqui dentro.
E tudo isso tem um preço.
O velejo nunca é calmo. É sempre uma tempestade pra conseguir colocar os pensamentos em ordem. O mar interno não conhece calmaria.
E enquanto eu procrastinava pra escrever, a ideia de não estar escrevendo zunia na minha cabeça feito um mosquito insistente. Então por que eu simplesmente não sento e escrevo? Porque quando a vida me ocupa, minha atenção se dispersa — e até o que é importante se perde. Priorizar, pra mim, também é um campo de guerra.
Cansa. Muito.
E isso é só um exemplo.
Minha desorganização não é física — é mental e digital. O espaço à minha volta, curiosamente, vive em ordem. Arrumar é minha forma mais elegante de procrastinar. O caos mora mesmo é dentro: um apocalipse em miniatura. Tenho 359 abas abertas no Safari do meu celular e, na mente, pelo menos, umas tantas outras.
A produtividade, do jeito que o mundo entende, é uma ilusão pra quem tem um cérebro como o meu. Aqui, não se administra tarefas — se administra dopamina. Não se mede tempo — se mede energia. E isso ainda é algo que estou aprendendo a gerenciar.
Aprender isso é como aprender um idioma completamente novo: você precisa esquecer as antigas estruturas da linguagem para descobrir novas regras, novas gramáticas, e até um novo jeito de pensar.
Não é simples.
Velejar nessas águas turbulentas cria uma experiência exaustiva. Há um cansaço que vem de dentro — um esgotamento que não é só físico, é existencial. Me faz pensar que a vida ter um fim traz um certo alívio — e não digo isso num tom triste.
A experiência de estar o tempo todo com a mente ultra conectada e garimpando cascalhos de motivação no meio do caos é como ser uma extensão com várias tomadas e adaptadores conectados ao mesmo tempo.
A sobrecarga é inevitável.
Ainda assim, de vez em quando, eu consigo desligar minha própria tomada por alguns instantes.
Como uma extensão que se desarma sozinha, meu cérebro também se apaga — um reset involuntário. Quando a energia volta, tudo parece normal outra vez…
Até o circuito se aquecer de novo.
Também há coisas muito pequenas que me irritam. Um detalhe fora do lugar vira catástrofe emocional. Reações desproporcionais. De manhã, tudo parece errado, pela tarde, tudo parece em ordem.
Lembro de um dia em que uma amiga estava em casa enquanto eu trabalhava. De manhã, eu reclamava de algo que não estava saindo como eu queria — algo tão irrelevante que nem lembro o quê era. Horas depois, no caixa do supermercado, a atendente perguntou como estava meu dia.
“Fantástico!”, respondi, sorrindo.
Minha amiga me olhou, surpresa, e sorriu: “Mas o seu dia não estava dando tudo errado?”
Eu também sorri. “Não está mais.”
Outra coisa curiosa: minha fala é emoção pura — em qualquer idioma. Às vezes, as palavras tropeçam: esqueço o que ia dizer, perco a linha do raciocínio, reconstruo tudo no meio da conversa.
Interrompo, não por descuido, mas por medo de deixar escapar a lógica que acabei de construir.
Meu cérebro também desliga a audição seletivamente quando o ambiente me exige demais. Ás vezes, é embaraçoso, então, ponho meu sorriso automático, educado — e deixo o mundo falar sozinho por um instante. Quem me conhece já sabe: depois me conta o que foi dito no meu ouvido.
Não só na minha audição, mas na minha comunicação alguns gatilhos que fazem meu cérebro simplesmente apagar no meio de uma conversa — ou pior, me fazer falar nada com nada.
Isso acontece quando estou diante de alguém que tem um peso emocional pra mim. Ou quando fico nervosa, estressada, cansada, impaciente — ou sob pressão. Quando o ambiente é barulhento, ou quando tudo parece acontecer ao mesmo tempo e eu não consigo focar em nada específico, as palavras se dissolvem antes mesmo de virarem som. Ás vezes é engraçado, ás vezes nem tanto.
É também verdade que o celular distrai todo mundo.
Mas pra quem se perde no reflexo da janela, no formato das nuvens ou em um pensamento aleatório que surge do nada, o celular é apenas mais um item na lista infinita de distrações.
Quando me distraio (o que acontece a maior parte do tempo), esquecendo instantaneamente o que deveria ter feito, dito ou enviado. Essa tarefa cai direto no buraco negro do meu cérebro — de onde, se tiver sorte, reaparece alguns dias mais tarde.
Por isso, quando tudo se torna objeto de distração, até o tédio vira estímulo.
Tem também o lado oposto, quando o foco vira obsessão, aquela urgência em terminar tudo nas próximas horas, e o hiperfoco não se aplica só a tarefas. Pessoas, ideias e curiosidades também me capturam por completo.
É assim que, ás vezes, me sobrecarrego até com o que me entusiasma. É a expectativa irrealista de querer fazer tudo ao mesmo tempo e acabar paralisada.
Também tenho ressacas sociais frequentes. Não por causa das pessoas, é a energia usada para estar com elas (mas, às vezes, pode ser a pessoa mesmo). Quando falo demais, me envolvo demais, socializo demais – o silêncio se torna necessidade.
Outra coisa que persiste — e talvez nunca se acomode — é o ritmo do meu tempo. Ele caminha devagar, como se o meu relógio interno estivesse em outro fuso. Das pequenas trivialidades — me explica a piada, por favor? — às etapas prescritas da vida, tudo em mim acontece em câmera lenta.
Ainda carrego a esperança delirante de que meu corpo continuará ovulando pelos próximos cinquenta anos — talvez porque, no fundo, eu sempre acredite que o tempo pode me esperar.
Falando em vida — a busca pelo sentido dela é interminável. Talvez porque viver, em si, seja a própria tentativa de dar sentido às coisas. Sentir propósito é o que acende o existir. Sem propósito, a vida se apaga em movimento. Eu posso mudá-lo, recriá-lo — não importa. O essencial é que ele exista e que caminhe comigo.
Contudo, tudo tem um lado bom. Minha empatia me ajuda a me conectar com as pessoas e a enxergar o todo com mais amplitude — ver diferentes perspectivas de uma mesma situação.
As pessoas ao meu redor dizem que eu sou espontânea (a tal da impulsividade disfarçada). Ainda não sei se isso é bom — às vezes é, às vezes não —, mas aparentemente as pessoas gostam disso em mim.
Minha curiosidade me leva a lugares que eu jamais imaginei encontrar. Tenho tesão pelos meus interesses — e, aos poucos, aprendo o poder de unir desejo e constância.
Minhas emoções são amplas, intensas, às vezes contraditórias. A única coisa que não sinto é medo de sentir; o que me apavora é a ideia de não sentir nada — o vazio que vem quando nada me atravessa.
Desde que eu sinta algo — bom ou ruim — está tudo bem. A intensidade pode até apagar a razão e trazer exaustão, mas também é ela que dá cor e pulso à vida.
A busca por autoconhecimento não é uma opção para quem é sensível — é uma necessidade. Sem pausa, não há integração da experiência; sem integração, não há aprendizado, nem identidade, nem consciência. O caminho contrário leva, cedo ou tarde, ao autocolapso.
O encontro entre imaginação e ousadia também é um presente. Nunca me dei muito bem com regras — no mínimo, preciso entender o sentido por trás delas.
Mas nada disso realmente importa, porque no fundo quase nada muda — só aprendi a ajustar a vela certa pra seguir o vento. No fim das contas, mar calmo nunca fez bom marinheiro mesmo.
Do meu mundo para o seu,
