Se essa obra-prima fosse publicada na Idade Média, com certeza, estaria no Index Librorum Prohibitorum, na lista dos livros proibidos pela igreja Católica. Grande fortúnio viver numa época quando somos livres para absorver tamanha sabedoria do despertar. Clarissa deixa claro bem no começo do livro: “Wildlife and the Wild Woman are both endangered species“. E dalí ela instrui como a mulher selvagem foi domesticada pela civilização e como voltar a se conectar com a mulher ancestral que há em todas nós.
Clarissa Pinkola Estés traduz o real significado do que se trata ser a mulher selvagem. Ela vai fundo nas entranhas da alma de toda mulher através de poesia em forma de texto, brilhante e precisa ao apontar e explicar minuciosamente as feridas do espírito feminino. Não é por menos, Clarissa é poeta, psicanalista e especialista em pos-trauma com 48 anos de prática clínica com pessoas traumatizadas pela guerra, exilou e vítimas de tortura; e como jornalista cobrindo histórias de sofrimento humano e esperança (http://www.clarissapinkolaestes.com).
“It’s not by accident that the pristine wilderness of our planet disappears as the understanding of our own inner wild natures fades (…) My life and work as Jungian psychoanalyst, poet and cantadora, keeper of the old stories, have taught me that women’s flaming vitality can be restored by extensive “psychic-arqueological” digs into the ruins of the female underworld. By these methods we are able to recover the ways of the natural instinctive psyche, and through its personification in the Wild Woman archetype we are able to discern the ways and means of woman’s deepest nature“.
Mulheres que correm com os lobos é uma compilação de mitos e contos de diferentes partes do mundo sobre o arquétipo da mulher selvagem, a cada capítulo Clarissa vai narrar um conto e logo exprimir o significado de todos elementos ali narrados. Não é um livro fácil e rápido de se ler, é uma leitura densa e de extrema atenção requerida. Carrega uma carga espiritual muito grande e uma complexidade que, em princípio, muitas mulheres não estão preparadas para compreender. Não é, tão pouco, um livro para ser lido uma vez na vida, pelo contrário, a primeira leitura é só para se familiarizar com as estórias contadas, não precisa ter uma compreensão racional e lógica das suas ideais. No entanto, o lado bom é que o livro não precisa ser lido inteiro de uma só vez para ser entendido. Os capítulos se tratam de contos diferentes, eles podem ser lidos separados e sem uma ordem específica, pois cada um e um livro em si mesmo.
Clarissa faz emergir as mais profundas camadas do nosso ser, incômodo e desconfortante, mas com um poder de cura imensurável, ela vai falar diretamente com o seu espírito despido e abrir teus olhos para tua sombra. É aquele tipo de livro que a cada ano, a cada experiência vivida, você vai compreender um pouco mais que a última vez que recorreu à sua sabedoria.
Entre muitas coisas que Clarissa ensina algumas delas são como matar o homem obscuro que vive na mente das mulheres, a importância de honrar suas cicatrizes, ser obscena, tratar sua história como medicina, a importância dos ciclos de vida e morte como parte essencial da vida, a honra e o privilégio do corpo feminino, amor é enfrentar uma assustadora parte de nós e do outro e como isso é fundamental para construir uma relação feliz e duradoura, o vício de sonhar acordada pode matar o seu espírito, encontre a sua tribo e abrace quem você realmente é, renda-se para o poder superior que existe dentro de você, não venda sua alma por segurança, confie e desenvolva sua intuição e supercivilização é a morte da alma.
Eu me vi chorando em alguns trechos onde parecia que a Clarissa falava comigo. Foi a terapia mais barata que já fiz e a mais contestadora. Eu parei de ler por algum tempo e depois voltei, é completamente normal dar uma pausa, se não conseguir concentrar, dê um tempo. Espero com esse breve texto ter plantado uma semente dentro do teu coração para você dar uma chance a essa incrível leitura.
E não se esqueça…
Mulher, você é livre para lê-lo.