Porque Mulheres estão Cansadas

Abandoned concrete industrial building with visible decay and empty openings, evoking structural collapse and neglect, photographed in daylight. Image used as a metaphor for systemic breakdown and deterioration.

Pense numa cidade inteira. Os prédios, monumentos, pontes, parques, ruas, avenidas, estádios, centro de eventos, bairros. Agora imagine essa mesma cidade, sem rede elétrica, encanamento de água, sistema de esgoto, cabos subterrâneos, e sem nenhuma manutenção contínua que ninguém vê.

Como você acha que seria viver nessa cidade? Não custaria muito a imaginar que ela seria parecida com a vida na era medieval, marcada pela constante convivência com guerras, doenças e escassez.

Pois a infraestrutura invisível dessa cidade representa o trabalho das mulheres no mundo em que vivemos. O tipo de trabalho que não aparece nos contratos, que não entra no PIB, que não gera bônus e muito menos rende status. Ainda assim, sem ele, nada funciona. Ou até funcionaria, mas tão precariamente que voltaríamos a viver na penúria do passado.

Chamamos o trabalho feito majoritariamente por mulheres de manter corpos vivos, casas habitáveis, relações minimamente humanas, sociedades emocionalmente estáveis de “amor”, “instinto”, “vocação” e até “jeito feminino”. 

Esse mundo racional, produtivo e meritocrático se fundamenta na expectativa omissa de que alguém – geralmente a mulher – estará sempre ali para sustentar tudo o que for além do óbvio, funcional e previsível.

Esse trabalho vai muito além de cuidar de outros humanos, é um trabalho que organiza a experiência humana: antecipando necessidades, regulando climas emocionais, traduzindo sentimentos, evitando conflitos, reparando rupturas, mantendo vínculos vivos, decorando datas comemorativas.

Um trabalho sem férias, sem salário, de forma preventiva, sem aplauso e sem pausa. Tudo em nome do amor e do instinto maternal.

O problema é que, neste mundo, o amor não pode ser remunerado sem ser desqualificado como tal. Nomea-lo como trabalho seria, paradoxalmente, reconhecer a sua própria inexistência.

Homens também pagam um custo alto. Socializados a não sentir, não pedir e não depender. Isso gera solidão, adoecimento psíquico e uma profunda pobreza emocional. Mas há uma diferença estrutural inegável de que esse custo não mantém outras pessoas funcionando. Ele mantém o próprio indivíduo operando dentro do sistema sozinho.

Já o trabalho invisível feminino sustenta os outros. Ele sustenta crianças, parceiros, famílias, ambientes, instituições. É trabalho de manutenção contínua. Quando ela chega à exaustão, tudo colapsa.

Nas relações heterossexuais, por exemplo, mesmo quando ambos trabalham fora, a mulher costuma ser a gerente invisível da vida a dois. Ela pensa pela relação. Ela sente pela relação. Ela puxa conversas difíceis, sugere terapia, administra crises, ajusta expectativas, faz concessões silenciosas que muitas vezes (se não.. na maioria das vezes) beira o auto-abandono.

Homens, por sua vez, costumam entrar na relação em momentos de crises, em momentos-chave, quando algo já está à beira do rompimento, de forma episódica e reativa… quando a rede elétrica da cidade pifa e, às vezes, nem assim…

Não é que homens não amem. É que o amor masculino sempre foi dissociado da responsabilidade cotidiana. Amar, para muitos homens, ainda não exige aprender linguagem emocional, cuidar da casa, sustentar vínculos ou revisar privilégios. Para muitas mulheres, amar exige tudo isso – e mais a renúncia a si mesmas.

Eu escrevo sobre isso porque observo o quanto as mulheres estão cansadas, ressentidas, vazias e apagadas mesmo “tendo tudo”. Confundem exaustão com inadequação pessoal.

Esse arranjo não é apenas emocionalmente desigual, mas também financeiramente arriscado – e esse risco recai quase integralmente sobre as mulheres. Ao assumir o trabalho não remunerado de cuidado, manutenção da casa e sustentação emocional da família, muitas mulheres abrem mão de tempo produtivo, progressão de carreira, estabilidade financeira e autonomia econômica. O que é vendido como “escolha” ou “prioridade afetiva” costuma ser, na prática, um contrato sem assinaturas.

Ilustrações de John Holcroft

Por isso cuidar da família sem remuneração não é um gesto neutro. É um investimento de altíssimo risco num sistema que não oferece nenhum seguro. Quando o relacionamento adoece, esfria ou se torna emocionalmente estéril e mecânico, a mulher frequentemente se vê enjaulada pela dependência. A falta de renda própria, de reservas financeiras ou de trajetória profissional contínua transforma o esgotamento emocional em confinamento material.

Muitas mulheres permanecem em relações emocionalmente mortas não porque não percebam a ausência de afeto, apreciação, intimidade ou reciprocidade, mas porque sair significaria enfrentar uma instabilidade financeira real, concreta e imediata. O custo de ir embora não é abstrato. Ele envolve moradia, sustento, filhos, saúde, envelhecimento e sobrevivência.

E tem um segundo fator que enjaula as mulheres e que é muito desconfortável admitir que é o tempo.

Além disso tudo, as mulheres são condicionadas a acreditar que elas passaram do “prazo”, porque o valor feminino está concentrado na aparência, na juventude e na desejabilidade, e isso cria a sensação de que, a partir de certo ponto, o amor verdadeiro deixa de ser uma possibilidade real e se torna um privilégio perdido.

Ao associar valor, amor e futuro à juventude feminina, o sistema produz uma resignação e desespero bem discretos. Muitas mulheres internalizam a ideia de que envelhecer equivale a se tornar menos amável, menos escolhível, menos digna de desejo e cuidado. Sutilmente aos poucos a esperança de um amor recíproco, justo e vivo vai se desvanecendo de dentro para fora.

Entre o medo da instabilidade material e o medo da irrelevância afetiva, muitas mulheres passam a interpretar o vazio como destino. Permanecer em uma relação sem intimidade passa a parecer mais seguro do que enfrentar a possibilidade – socialmente construída como improvável – de recomeçar.

Convencer mulheres de que seu valor expira para reduzir drasticamente suas opções é um mecanismo de controle bem sofisticado. 

A permanência não é por escolha afetiva, é estratégia de sobrevivência simbólica. A relação é sustentada pela estabilidade financeira e pela crença de que não há mais amor possível fora dela.

O paradoxo em tudo isso é que o trabalho que deveria gerar segurança – cuidar da casa, da família, da relação – é justamente o que fragiliza economicamente e emocionalmente quem o realiza. Ao dedicar anos, décadas à sustentação invisível do outro e do vínculo, a mulher se torna descartável do ponto de vista econômico e social, porque o sistema trata esse sacrifício como virtude.

Como o escritor e psicanalista, Lucas Lujan, fala:

“Por causa da imprevisibilidade, da precariedade e das frustrações recorrentes,  amar sempre é um ato de coragem”.

Assim amar, para muitas mulheres, implica colocar o próprio futuro financeiro em segundo plano em nome de uma estabilidade relacional que, ironicamente, nunca é garantida. E quando essa estabilidade se revela ilusória, o preço a pagar já é alto demais para ser ignorado.

O terapeuta e escritor Terrence Real observa que muitas mulheres se sentem profundamente infelizes em seus casamentos não por exigirem demais, mas por desejarem uma presença emocional que a maioria dos homens simplesmente não foi socializada para oferecer. Ao mesmo tempo, homens se sentem infelizes justamente porque convivem com mulheres cada vez mais frustradas dentro dessas relações – criando um ciclo de ressentimento mútuo que se retroalimenta.

Para sustentar o vínculo, muitas mulheres aprendem a reprimir suas próprias necessidades. Mas, como Real aponta, ao reprimir necessidades, reprime-se também o senso de prazer. O amor deixa de ser espaço de vitalidade e vira exercício de contenção. O desejo não desaparece, ele é só sistematicamente ignorado.

Eu não escrevo isso para atacar os homens. Isso é sobre atacar a ideia de que a vida se sustenta sozinha. É começar a questionar a ideia de que o amor possa existir dissociado de reconhecimento e reciprocidade afetiva. Uma narrativa que crescemos ouvindo e vendo em toda parte, que condiciona o nosso subconsciente a aceitar como natural um arranjo coletivo falido.

Sim… amor pode ser cuidado. Mas cuidado sem escolha, sem reciprocidade e sem reconhecimento não é amor – é pura extração.

Em caso de um dia você ter se perguntado qual é a função do feminismo, o cansaço aparente, ou o porque mais e mais mulheres escolhem optar por não estar em uma relação para priorizar a carreira, por não terem filhos, ou por simplesmente recomeçarem… esse é o motivo.

Afinal, cidade sem infraestrutura é ruína.

Até o próximo sip,

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Respostas de 2

  1. Um dos textos mais profundos seus Cha. Me deu vontade de te dar um abraço… te abraçando a distância. Compartilhando a lembrança de que um dia retornaremos para casa, e nessa verdadeira morada, o Amor é a única verdade que há.
    Beijos, Ju.

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