Meu princípio budista favorito. Eu me lembro de ouvir a pessoa explicando pra mim esse princípio pela primeira vez. Meus olhos viraram dois corações e meus ouvidos se entortaram para frente rsrs. Foi paixão ao primeiro ensinamento rsrs. Pra mim esse princípio explica tudo. Explica como funciona o carma, que a vida não é separada do ambiente e todas as escolhas que fazemos a cada milésimo de segundo.
O princípio de Itinen Sanzen se baseia na ideia de em um único instante existirem 3000 possibilidades de escolhas. Por quê 3000? Para explicar o Itinen Sanzen primeiro temos que entender os dez estados de vida e o princípio da possessão mútua, porque está tudo interconectado (eu fiz dois posts explicando esses dois princípios). Explicado essa parte. Vamos para os 10 fatores da vida.
Os 10 fatores da vida estão no capítulo Hoben (meio) do Gongyo e são eles:
1- Aparência – tudo que existe no universo tem uma forma física e material;
2- Natureza – tudo que existe no Universo tem uma essência ou substância;
3- Entidade – é a existência da vida em si;
O que podemos concluir até aqui é que tudo que tem uma aparência e uma essência possui uma entidade, ou seja, possui existência.
4- Poder – a energia que rege tudo o que existe;
5- Influência – é a mensagem que transmitimos para o ambiente com nossas ações, atitudes e comportamentos;
6- Causa Interna/Inerente – e a intuição colocada nos pensamentos, palavras e ações criando a explicação (causa) para o que vai nos acontecer no futuro (seja nessa vida ou em uma vida passada, seja bom ou ruim), é o famoso carma;
7- Relação – é como enfrentamos os acontecimentos externos;
8- Efeito latente – é a projeção da causa interna com a relação sem ser manifestada;
9- Efeito manifesto – é a manifestação concreta e perceptível do efeito latente;
Esses 6 fatores indicam as funções e o modo como eles operam os fenômenos.
10- Consistência do início ao fim – este, por sua vez, é a conexão direta, harmônica, coerente e consistente entre os nove fatores em cada instante da vida.
Eu vou usar o exemplo do blog http://marlitrindade.blogspot.co.nz/2009/07/os-dez-fatores-da-vida.html, porque ela arrasou nessa explicação. Entre todos os sites que usei para estudar esse princípio o exemplo que ela explana foi o mais oportuno. Ela diz:
A sua própria existência é um “fenômeno”. Suas feições fisionômicas, postura e assim por diante constituem a “aparência” do “fenômeno” que é sua vida.
Além disso, o que existe em seu coração, embora invisível aos olhos, tais como traços de sua personalidade — tolerância, impaciência, gentileza e discrição — ou os vários aspectos de seu temperamento, constituem sua “natureza” (nyo ze sho). Sua totalidade física e espiritual, ou seja, sua “aparência” (nyo ze so) e sua “natureza” (nyo ze sho) juntas formam sua “entidade” (nyo ze tai), a pessoa que você é.
Da mesma forma, sua vida tem várias energias (“poder”), e elas produzem várias ações externas (“influência”). Além disso, sua própria vida passa a ser uma causa (“causa interna”) que, ativada por condições internas e externas (“relação”), gera mudanças em si mesma (“efeito latente”), e em seu devido momento esses efeitos latentes manifestam-se de forma concreta (“efeito manifesto”).
Esses nove fatores também ligam sua vida e seu ambiente sem nenhuma omissão nem inconsistência (“consistência do início ao fim”). Esse é o verdadeiro aspecto dos dez fatores de sua vida…
As pessoas em cada um dos dez mundos ou estados são dotadas com os dez fatores de acordo com seu estado de vida. Por exemplo, as pessoas no estado de Inferno têm a aparência obscura e depressiva de alguém oprimido pelo sofrimento. Como sua natureza é cheia de sofrimento e ódio, seu poder e influência tendem a também envolver na escuridão aqueles que estão ao seu redor…
Do mesmo modo, cada um dos dez mundos tem seus próprios fatores… e há consistência do início ao fim.
Esse exemplo mostra bem como os dez fatores (ou dez mundos) estão presentes na nossa vida. Contudo, esse é somente um exemplo, mas observe que podemos aplicar os dez fatores em qualquer situação pela qual passamos e a qualquer coisa que exista (à fauna, à flora, aos astros, à natureza como um todo, etc).
É importante frisar que segundo o Budismo a maneira como nos relacionamos com o mundo não depende somente de como você vive sua vida, mas também das causas internas criadas em vidas passadas. Portanto, os hábitos e comportamentos que temos hoje juntados à carga cármica gerida no passado constitui as nossas causas inerentes.
Por isso, muitas das nossas reações às repostas dos estímulos externos vão além de nossa compreensão intelectual e consciência, assim como os nossos gostos, as coisas e pessoas que nos agradam e nos desagradam.
Deste modo, compreendemos a partir deste estudo a importância de mantermos conscientemente pensamentos, palavras e ações positivas independentemente das nossas circunstâncias para criarmos consistentemente carga cârmica positiva e aí então começar a desenvolver uma vida mais harmônica com relações saudáveis.
Não importa quão caótica podem estar as circunstâncias, quanto mais o indivíduo responder a isso com comportamentos e ações negativas mais confusão, desordem e distúrbio vai atrair. Ao contrário, se responder com estados de vida elevados aos poucos o indivíduo transformará suas circunstâncias em águas cristalinas, mas é preciso um constante e consistente desenvolvimento pessoal.
Bom, explicados a essência dos dez fatores agora nos resta entender os três domínios da existências para, aí então, compreendermos o Itinen Sanzen.
Os três domínios da existência são compostos por:
1 – Os cinco componentes da vida:
1.1 Forma – no exato momento que uma vida é criada no Universo ela é dotada de características físicas e espirituais, consequências estas de sua carga cármica, e o que faz dela única e individual. Portanto, a forma esclarece o aspecto físico da vida (forma e cor) e os cinco sentidos como forma de interação com o mundo (tato, olfato, visão, paladar e audição);
1.2 Percepção – é a capacidade da integração dos seis órgãos sensoriais (cinco sentidos mais a mente).
1.3 Concepção – essa é a capacidade de elaboração de ideias a partir do que foi percebido (pensamentos-julgamentos).
1.4 Volição – é a vontade que surge após uma conclusão sobre um pensamento-julgamento.
1.5 Consciência – é a capacidade de avaliar, analisar, observar, contemplar, ponderar e identificar as dualidades da vida para mantê-las em equilíbrio e assimilar as demais capacidades citadas.
2 – Ambiente social – somos seres sociais, portanto vivemos nossas vidas em conjunto com outras pessoas, em sociedade. A falsa ideia de que o outro é diferente, oposto ou separado do “Eu” é o egocentrismo que origina todas as causas do sofrimento humano segundo o Budismo. Desta forma, o “Eu” é mutável e dependente de todos os outros fenômenos.
3 – Ambiente natural – é o espaço físico onde os seres vivos habitam, o meio-ambiente e todos os recursos que ele disponibiliza para satifazermos nossas necessidades vitais.
Os três domínios da existência são interligados entre si. Não devem ser vistos separados e independentes. Eles se conectam e influenciam um ao outro.
Finalmente, podemos falar agora sobre o Itinem Sanzen mais a fundo. Itinen significa algo como “um momento da vida” e Sanzen significa algo como “fenômeno que a vida manifesta” ou “três mil”.
Assim o princípio do Itinen Sanzen significa que um único momento da vida possui três mil alternativas, escolhas ou possibilidades. Chega-se a três mil através da seguinte conta:

Os 10 fatores são a forma como os 10 estados de manifestam nos 3 domínios da existência. Assim com este princípio podemos concluir que o corpo e a mente, o ser vivo e o ambiente e a lei da causa e efeito estão diretamente interligados em um simples instante da vida, num momento determinado no tempo. São de três mil formas que os momentos da vida podem se manifestar como um fenônemo.
Por isso cada pessoa juntamente com sua história de vida é exclusivamente única e extraordinária. Pois cada uma tem uma personalidade única, com um modo de viver ímpar e uma interação exclusiva com o ambiente. Em função disso, não há sentido algum a comparação sistemática que fazemos com outras pessoas.
Desta forma, através desse princípio compreendemos que nossa vida está em nossas mãos e nós temos a determinação de escolher caminhos para as mais diversas situações, portanto, temos o poder de construir ou destruir. É por isso que pensar positivamente somente não funciona, pois os pensamentos, as palavras e as ações devem estar em sincronicidade.
“A vida é a soma de nossas escolhas.” Albert Camus
Fique em paz
Cha ☯