Abrindo meu coração em 3, 2, 1…
Indiferença. Indiferença em relação à vida. Pode estar frio, nevando, tudo branquinho, uma linda manhã de inverno, ou pode estar calor, sol, aquela brisa de verão, pode estar tudo florido, não há diferença. Tudo é cinza. Seu coração está pressionado. Alguém aperta bem forte seu coração. Você sente dor no seu peito. Sem nenhuma razão aparente. Você simplesmente só se sente triste. E quer ficar sozinho. Alguns dias esse vontade é mais intensa outros você está um pouco melhor. Alguns dias você se sente cansado, cansado de falar, de ouvir, de pensar, de existir. Às vezes a melhor coisa a se pensar é qual seria a melhor forma de acabar com tudo isso. Tudo tanto faz. E você se esquece do que era importante facilmente.
De repente sua pulsação vai de 80 bpm pra 110 bpm. Seu coração começa a bater forte dentro de você. Você começa a suar. Você sente calor. As pessoas começam a ficar cada vez mais longe e você não as ouve mais. Você também tem tremor e muito medo. Você precisa respirar. E você precisa de ajuda. Alguma coisa está errada.
Esses foram meus sintomas por alguns anos da minha vida. Depressão e síndrome do pânico. Eu me lembro de não parar de chorar e não saber o que eu sentia aos 12 anos.
Meu primeiro ataque de pânico foi aproximadamente aos 9 anos, eu estava na quarta série. Eu senti uma ânsia muito grande e sai da classe com a inspetora que me levou para a lavanderia da escola, eu não queria ir para o banheiro, porque talvez alguém ia me ouvir vomitando. Nunca vomitei.
Outra vez foi no estacionamento do shopping, não consegui sair do carro porque se eu vomitasse na frente de todo mundo, todos olhariam para mim. Voltamos para casa.
Aos 12 anos fiz uma viagem para um acampamento e a “tia” que cuidou do nosso grupo fez piada da minha cara. Falou que eu era mimada e mostrava a comida dentro da boca dela para eu ver o que era nojento.
Aos 13 eu comecei a me machucar. Com a pré-adolescência tudo piorou porque tive espinhas e as espinhas se tornavam feridas e as feridas se tornavam minha válvula de escape. Como eu sentia prazer em abrir as feridas com alicate de unha antes do banho e depois vinha a culpa gigantesca do por quê fazer aquilo.
Eu tive feridas do tamanho de uma moeda no meu rosto. Hoje, nunca parei pra contar, mas devo ter mais de 500 (? não faço ideia, muitas mesmo) pequenas cicatrizes espalhadas pelo meu corpo. As pessoas perguntavam se era de catapora. Demorou algum tempo para descobrir o nome daquilo que eu sempre dissera que não era normal: skin picking desorder.
E os médicos. Ah… os médicos. Terapeuta, psicólogo, psiquiatra, homeopata, dermatologista, especialista em cosmésticos, etc. Eu falava que me sentia uma leprosa para eles.
Aos 14 anos eu precisei de remédio, mas não por muito tempo, porque sabia que poderia viciar. Daí fui apresentada ao budismo. Filosofia que foi e é minha base até hoje. Nunca alguém falou tantas coisas que fizeram tanto sentido para mim. Eu escolhi parar com a medicação.
Eu fui crescendo e aos poucos a depressão foi passando. Fiz mais tratamentos, principalmente para minha pele. O que ajudou muito minha auto-estima. E quanto mais eu via que minha pele poderia ser bonita mais eu tinha forças para me controlar.
Eu poderia ir para praia. Usar um shorts sem vergonha e sentir a brisa nas minhas pernas. E não usar fita crepe por todo o corpo para não ver e sentir as feridas e cutucá-las.
A síndrome do pânico também melhorou. Mas isso não é uma coisa que as pessoas se curam. As pessoas se recuperam. Eu já tive algumas situações recentemente que estive de frente com esse sentimento, mas hoje eu sou consciente e consigo me controlar mais rápido.
Há mais de um ano não tenho aquele dia cinza. Até me lembro como foi a última vez. Estava sol, um dia lindo, mas eu preferi ficar na cama. Nunca estive tanto tempo sem ter um dia desses ininterrupdamente.
Quem nunca teve essas coisas é difícil entender. Eu mesma diria se eu nunca as tivesse nunca entenderia. Mas eu entendo. E entendo muito bem, porque eu já estive na beira do precipício. Eu sei como é estar no quase xeque mate.
A depressão é um tabu. Porque é difícil de entender. Como entender uma pessoa depressiva quando ela tem de tudo, não é mesmo? Nem mesmo o amor mais puro e incondicional dos seus filhos é capaz, às vezes, de salvar. Tal é o poder dessa doença da alma.
Por isso, eu digo por experiência própria. Chega um certo momento que é preciso medicamento. Sua fisiologia não é capaz de produzir serotonina pelo menos por um certo tempo.
Quando eu conheci o budismo eu passei a ter consciência do poder dos meus pensamentos. E o quanto a meditação poderia me colocar nos eixos e somente eu mesma poderia acabar com aquele pesadelo. E que eu era a protagonista da história que eu queria contar. E assim fui encontrando forças, aos poucos.
Muitas pessoas me ajudaram, mesmo nem tendo a mínima ideia disso.
Eu confesso que escrever sobre isso é libertador, porque esse nunca foi o assunto da pauta. E eu sei que tem muita gente lá fora que às vezes sente o mesmo mas nem parece. Você nunca falaria que fulana ou fulano tem depressão. A gente não fala sobre isso. Mas é importante perguntar: Você está bem? Posso te ajudar? Vamos conversar? Ou simplesmente dê um abraço porque as palavras nem sempre vêm facilmente.
Esse texto é minha homenagem a nossa colega do Yoga, Frankie, ela deixou recentemente dois filhinhos e o marido.
Paz no coração de todos vocês
Com amor,
Cha
Respostas de 3
Meu amor, sinto um profundo orgulho por vc. Falar, verbalizar, contar nossas feridas não é tarefa fácil mas mostra uma etapa sofrida q está no passado. Tenho absoluta certeza q vc está ajudando um tantão de gente. Parabéns pela coragem, pela lição, pelo respeito com o ser humano, pelo amor q vc emana. Te admiro sempre e torço pela tua felicidade infinita. T.a.
Parabens Chachazitsss!!! Me lembro bem destes dias e fico profundamente feliz em presenciar na grande pessoa que se tornou. Forte e feliz!!! Avante sempre.
Amo a sua coragem, a sua força e o seu jeito de ver o mundo! Você é uma pessoa iluminada! Amo muito vc!