TDAH em Mulheres Adultas: Meu Diagnóstico aos 33 Anos

A woman wearing a floral blouse and olive-green hat sits in a sunflower field under clear blue skies, looking calmly at the camera with rows of vibrant yellow sunflowers behind her.

Os primeiros 30 anos da minha vida pareceram um longo ensaio de um papel que não era meu. Algo que observei com o tempo — em mim e em outras meninas — é um fenômeno silencioso: meninas que começam a vida sendo expansivas, falantes, curiosas, intensas… e que, aos poucos, antes mesmo da adolescência, vão perdendo o brilho nos olhos e o entusiasmo que antes pulsava em tudo que faziam. É como se uma luz fosse sendo suavemente apagada para que caibam melhor no mundo ao redor.

Comigo, esse apagamento começou entre os 7 e 9 anos, quando tive meus primeiros ataques de pânico — uma ruptura precoce com a sensação de segurança no mundo. Na adolescência, os episódios de depressão se tornaram mais frequentes, e aos 14 anos encontrei na filosofia budista uma âncora emocional que, de certo modo, salvou minha juventude. Só para se ter uma ideia ao longo da minha trajetória escolar, mudei de escola sete vezes. Nunca sentia que pertencia a algum lugar. Era como se minha presença estivesse sempre um pouco deslocada, como se eu fosse uma peça torta tentando caber em sistemas retos.

Na universidade, percebi um padrão que me incomodava: eu deixava para estudar na véspera dos exames, passava madrugadas inteiras tentando absorver o conteúdo. E, curiosamente, se eu gostava da matéria, eu só revisava a matéria e ia bem nos exames — pois prestava atenção nas aulas. Esse comportamento me fazia sentir na média, sempre improvisando. No fundo, sempre achei que isso fosse imaturidade e que um dia passaria.

Quando Comecei a Me Perguntar

Foi ao chegar aos 30 anos, com mais maturidade e uma certa honestidade comigo mesma, que comecei a notar um padrão desconfortável: alguns comportamentos que eu esperava abandonar com a “vida adulta” ainda estavam ali.

Mas o mais marcante foi perceber como as pessoas ao meu redor pareciam navegar a vida com mais foco, mais linearidade, mais estabilidade interna — e isso me levou a um questionamento que virou um refrão mental: por que eu não sou assim?

Em algum momento — não me lembro como — me deparei com uma lista de sintomas do TDAH e senti um choque. Sintomas que eu jamais imaginaria estarem ligados ao transtorno descreviam exatamente o que eu sentia. Foi como se alguém tivesse finalmente colocado legenda naquilo que eu vivia.

Até então, meu único contato com o TDAH era a imagem clichê da criança hiperativa que não para quieta, não consegue assistir televisão e vive sendo repreendida por não fazer a lição de casa. Eu era completamente ignorante sobre a diversidade de manifestações do transtorno — principalmente em mulheres adultas.

Quando comentei com uma amiga sobre a minha suspeita, ela me encorajou a procurar um médico. Ainda assim, demorei a levar a sério. Pensei: se eu cheguei até aqui sem diagnóstico e sem remédio, posso continuar assim. Naquele momento, eu ainda via tudo como um luxo desnecessário, não como uma questão de saúde mental.

Dois anos depois, algo aconteceu e que me fez procurar ajuda.

Um fim de semana eu viajaria para outra cidade a três horas de distância. Sempre adorei dirigir sozinha, colocar minhas músicas favoritas e mergulhar no meu universo interno, e me desligar. O detalhe é que as estradas da Nova Zelândia são estreitas, sinuosas e perigosamente mais vazias.

Naquele dia, saí de casa às cinco da manhã, sem ter dormido direito, dirigindo meu carro novo. Duas horas depois, distraída e imersa em pensamentos, colidi com um veículo parado com o pisca-alerta ligado, aguardando para virar à direita. Por sorte — e talvez por intervenção divina — ninguém se machucou.

Dei perda total no carro. O seguro me deu outro, mas aquele episódio foi um divisor de águas.

Quando me perguntavam o que havia acontecido, eu mentia — dizia que o sol havia ofuscado minha visão. Mas, por dentro, eu sabia a verdade: eu estava tão distraída e dissociada que simplesmente não vi o carro na minha frente. Foi nesse momento que uma ficha caiu com força — eu não fazia isso só no trânsito. Eu me dei conta o quanto eu mascarava. Sempre escondi e me adequei. Era minha maneira inconsciente de sobreviver num mundo que não funciona para o meu ritmo interno.

Foi aí que decidi agendar uma consulta. A fila de espera na Nova Zelândia era de nove meses, mas liguei pedindo para ser encaixada em caso de cancelamento e consegui antecipar para seis. Eu precisava falar com alguém, precisava entender se aquilo tudo era só invenção da minha cabeça ou se havia, de fato, uma explicação mais profunda para o que eu vivia.

A vibrant sunflower field under bright sunlight with a single black and white sunflower standing out among the fully colored yellow blooms, symbolizing contrast and individuality.

O Diagnóstico

Nunca vou esquecer o dia 6 de Março de 2024. Falar com um profissional e finalmente descrever meus sintomas sem filtro foi como abrir uma porta que eu nem sabia que existia. Quando ele confirmou o diagnóstico e explicou como meu cérebro funciona, desabei em lágrimas. Foi como se um filme passasse na minha cabeça — comportamentos que antes eu atribuía a uma fragilidade pessoal ou falta de disciplina acompanhada de muito culpa — tudo, de repente, ganhava contexto e significado.

O médico compartilhou comigo uma analogia que nunca mais esqueci: viver com TDAH é como ter uma Ferrari — um motor potente, cheio de ideias, energia e criatividade — mas que não consegue sair da segunda marcha. Ou seja, o problema não é falta de capacidade, mas sim de regulação. É ter velocidade interna, mas não conseguir direcioná-la com constância. Essa imagem traduziu exatamente como eu me sentia: acelerada por dentro, mas emperrada nas engrenagens do cotidiano.

Foi um alívio imenso entender por que eu me sentia tão desalinhada durante tanto tempo. O diagnóstico foi uma validação externa de algo que, lá no fundo, eu já intuía — mas que nunca tinha tido as palavras ou o entendimento necessário para afirmar em voz alta.

Reescrevendo Meu Senso de Identidade

Depois do diagnóstico, começou um processo de reestruturação da minha narrativa pessoal. Me aprofundei no assunto e percebi o quanto eu ainda não sabia sobre ele. Fui conhecendo os mitos, os estigmas, as limitações e também os potenciais associados ao TDAH. Nesse aprofundamento, vivi também uma fase de vitimização: comecei a enxergar o diagnóstico como uma espécie de sentença, uma explicação definitiva para tudo, alimentando a crença limitante de que “sou assim e pronto”.

Com o tempo, o movimento se inverteu: comecei a enxergar os pontos fortes do meu funcionamento — minha criatividade, minha intuição, minha sensibilidade intensa — e a explorar maneiras de colocá-los a serviço da minha vida, em vez de tentar me encaixar num modelo que nunca foi meu.

Mas o que mais me surpreendeu de tudo isso foi saber de que muitos estudos demonstram que o TDAH se manifesta de maneira diferente em meninas e meninos — e essas diferenças moldam profundamente a forma como o transtorno é vivido, percebido e tratado.

Meninos, por exemplo, por apresentarem sintomas mais visíveis como hiperatividade e impulsividade, costumam ser diagnosticados mais cedo.

Já as meninas tendem a mascarar os sintomas para se adaptarem às expectativas sociais, internalizando a desatenção, a confusão e a autocrítica. Essa camuflagem constante torna o diagnóstico mais difícil e contribui para o acúmulo silencioso de culpa, ansiedade e baixa autoestima — o que descreve com precisão o meu estado interno até o diagnóstico.

Então, enquanto meninos às vezes são encorajados a enxergar seus comportamentos como sinais de ousadia ou criatividade, as meninas aprendem, desde cedo, a silenciar o que não se encaixa nas expectativas.

Muitas de nós sofremos em silêncio por anos, até termos linguagem — e coragem — para nomear aquilo que sempre sentimos. Isso ficou ainda mais evidente para mim ao assistir entrevistas de homens com TDAH: a maneira como eles falam sobre si mesmos, com mais naturalidade, confiança e até orgulho, é completamente diferente da minha experiência marcada por dúvida, auto-sabotagem e camuflagem.

Meu Estado Interior de Hoje

Até hoje me surpreendo ao perceber o quanto eu mascarava — e o quanto eu lutava contra a mim mesma. O conflito interno de parecer funcional por fora e estar em turbulência por dentro é real e exaustivo. Só quem vive sabe.

O diagnóstico foi um divisor de águas. Hoje, olho para minha história com mais autocompaixão.

Ainda estou aprendendo, me conhecendo e me reconstruindo, mas agora com mais clareza e, principalmente, com menos culpa.

Me pergunto quantas outras mulheres seguem se moldando, se adaptando, se silenciando — sem saber que há uma explicação por trás desse esforço todo.

Eu espero que meu relato possa alcançar alguém que, assim como eu, carrega um conflito interno sem nome, e que talvez encontre aqui um espelho, um alívio ou mesmo um ponto de partida para se olhar com mais gentileza. Porque às vezes, tudo o que a gente precisa para começar a se entender é saber que não está sozinha.

Do meu caos para o seu,

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