Algumas semanas atrás, eu e uma amiga fomos dar uma mão na fazenda da Dayanne e do Paul, aqui perto de casa. Eu conheci a Dayanne a uns nove anos atrás na academia, ela é brasileira e veio sozinha para a Nova Zelândia para continuar seus estudos e assim como eu, mal falava inglês quando chegou.
Hoje ela é referência no que faz, zootecnista formada no Brasil e atua na Nova Zelândia com coleta e manejo de DNA animal para a produção de gado e ovinos de elite. Conhecida não só pelo excelente trabalho, mas também pela sua paixão e entusiasmo pelos animais e pela fazenda – não à toa, se chama “Sheep Nutter”, que significa louca por ovelhas.




E por isso, sempre que nos encontramos, adoro aprender com ela sobre o seu estilo de vida. Fico fascinada pela complexidade do manejo de sua fazenda e pelas diferenças que ela conhece, na prática, entre a agricultura no Brasil e na Nova Zelândia.

Estar com a Dayanne é como estar numa sala de aula, você acaba aprendendo muito! Eu não só admiro o seu ânimo e paixão pelo trabalho, como também a sua paciência em responder às minhas perguntas, rs. Por isso foi incrível trabalhar um dia na fazenda com ela.

O dia de trabalho foi tirar o rabo e coletar material genético dos cordeiros. Começamos por volta das 8 da manhã. Estávamos em um grupo de cerca de dez pessoas, cada uma responsável por uma etapa específica do processo. Duas pessoas posicionavam os cordeiros no rack; uma coletava o material genético; outra colocava a etiqueta; outra fazia a leitura; uma preparava as próximas etiquetas; outra realizava o corte da cauda; e outra já manejava o próximo grupo de cordeiros. Ao longo de seis horas, trabalhamos com cerca de 450 cordeiros, distribuídos em sete lotes diferentes — um ritmo intenso, pensado para ser o mais rápido e eficiente possível dentro desse tipo de manejo. O dia estava ensolarado e quente dentro do brete o que ajudou bastante na produção coletiva de suor! Rs

Essa foi a primeira vez que a gente (eu e a minha amiga, Marina) trabalhamos (de verdade, rs!) em uma fazenda. Foi engraçado ver o contraste entre pessoas urbanas e rurais e por isso estar lá me fez refletir sobre esses dois estilos de vida.



Pessoas urbanas vivem “do calendário”: organizam seus dias pela lógica do relógio, da agenda e dos compromissos marcados. O tempo é dividido em horas, semanas, feriados. A vida é estruturada em blocos previsíveis.
Por outro lado, pessoas do campo vivem do ciclo das estações. Elas respondem ao que a natureza pede, ao clima que muda sem aviso, ao ritmo dos animais e das fases do ano. Ali, não existe começo e fim de expediente, só continuidade.


Para quem trabalha por horário, as tarefas podem ser reorganizadas, adiadas ou negociadas. O descanso é protegido pelos fins de semana, pelos feriados, pelo simples ato de fechar o computador e ir embora.
Ao contrário de quem trabalha em cuidado contínuo, as demandas não esperam. A terra e os animais têm seu próprio tempo, que não combina com prazos humanos. E a interrupção não é rara, ela é o próprio modo de viver.


Enquanto a vida urbana separa trabalho e vida pessoal, o campo mistura casa, rotina, clima, esforço físico, decisões diárias. É um cotidiano que exige sempre presença física e mental, responsabilidade, resiliência, dedicação e verdadeiro amor pelo que faz. Na essência, é o contraste entre programar o tempo e responder ao tempo, conciliar metas com imprevisibilidades, plantar e cuidar para colher mais tarde.


O cotidiano urbano demanda conexão com pessoas, ao contraponto do cotidiano rural que demanda conexão não só com pessoas, mas também e, principalmente, com os animais e a terra. Essa diferença na demanda molda a saúde mental de formas distintas. Enquanto um sobrecarrega por excesso de estimulação social, por outro lado o outro sobrecarrega por excesso de responsabilidade contínua com a vida e, sobretudo, do isolamento social.



Nesse dia, trabalhando com a Dayanne e com todo o grupo me fez perceber o quanto esse estilo de vida é, de fato, holístico e nobre. Holístico porque integra corpo, tempo, trabalho e responsabilidade ao ritmo constante da natureza, e nobre porque revela a humildade de um trabalho sem pausas, sem garantias e quase sempre sem reconhecimento — o trabalho humano mais antigo que sustenta a sociedade, que garante o nosso alimento e mantém vivos os ciclos que tornam a vida possível.



Por fim, obrigada à Dayanne e ao Paul por nos receberem e nos permitirem, ainda que por um dia, sair do ritmo urbano para experienciar o tempo do campo – com tudo o que ele exige e oferece.
Até o próximo sip,
